
Na Praia de Jaconé, entre Maricá e Saquarema, formações rochosas junto à faixa de areia guardam registros de milhares de anos da história do litoral fluminense. Conhecidas como beachrocks, essas estruturas se formaram a partir da cimentação natural de sedimentos de antigas praias.
Para quem visita o local, elas podem parecer apenas pedras à beira-mar. Para a ciência, são evidências de mudanças no nível do oceano, da dinâmica das praias e até da presença de populações pré-históricas na região.
Como uma praia se transforma em rocha?
Os beachrocks se formam quando areia, cascalhos e fragmentos de conchas são unidos por minerais presentes na água. Ao longo do tempo, esse material solto endurece e se transforma em rocha.
Em Jaconé, estudos identificaram três tipos principais de formações sedimentares: arenitos, coquinas — rochas com grande concentração de conchas — e conglomerados. Os afloramentos ocupam mais de 1.100 metros contínuos da praia e podem alcançar cerca de seis quilômetros ao considerar trechos descontínuos. O estudo foi publicado na Revista Brasileira de Geociências.
Conchas datadas em mais de 8 mil anos
As conchas encontradas nos beachrocks de Jaconé foram datadas entre 8.198 e 7.827 anos antes do presente, pelo método de radiocarbono.
Esse dado indica como era o litoral milhares de anos antes da formação das cidades atuais. As pesquisas apontam que a antiga praia se desenvolveu em um período no qual o nível relativo do mar estava abaixo do atual, cerca de meio metro segundo os estudos sobre a área.
Por isso, os beachrocks funcionam como marcadores naturais das mudanças do nível do oceano e ajudam a compreender a evolução costeira de Maricá e Saquarema.
Charles Darwin observou as rochas em 1832
Os beachrocks de Jaconé também fazem parte da história internacional da ciência. Charles Darwin observou as formações em 9 de abril de 1832, aos 23 anos, durante a viagem do HMS Beagle pelo litoral fluminense.
A passagem do naturalista deu origem ao apelido de “Rochas de Darwin”. O Geoparque Costões e Lagunas destaca as formações como patrimônio natural de grande relevância geológica, ambiental, paisagística e cultural. Veja informações do Geoparque sobre o local.
Relação com populações pré-históricas
Fragmentos de beachrock foram encontrados nos sambaquis da Beirada e de Moa, em Saquarema. A descoberta mostra que grupos humanos que habitavam a costa há mais de quatro mil anos já conheciam e utilizavam esse material.
Pelo valor geológico, arqueológico, histórico e ambiental, os beachrocks de Jaconé são considerados um patrimônio de importância internacional, com potencial para ações de educação ambiental, pesquisa e geoturismo.
Preservar o local significa respeitar a paisagem: não retirar fragmentos de rocha, não deixar lixo e evitar intervenções que possam danificar esse registro único da história natural do litoral.


